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O Cangaço na Literatura de Cordel

Por Kydelmir Dantas*


A necessidade de se deixar registrados fatos, ‘causos’ e ocorrências, em tempos passados, foi a responsável pela criação de uma literatura de massas, que abrangia todos os temas da região, do país e, até, do mundo. A Literatura de Cordel, com a sua maneira simples de ser compreendida, veio substituir os antigos menestréis na divulgação desses fatos. Era como se fosse um jornal itinerante, escrito em forma de poesia, de aquisição fácil e barata. Segundo o Mestre Câmara Cascudo: “É o romanceiro popular nordestino, em grande parte contido em folhetos impressos e expostos à venda nas feiras e mercados.”



Dos mais variados temas abordados, como as estórias de reis e princesas; dos amores ; dos caçadores; dos desbravadores dos Sertões; das pelejas dos violeiros, os famosos desafios; do misticismo, na figura de Pe. Cícero e Frei Damião, das estórias de animais, como ‘O Pavão Misterioso’, dentre outros, o Mestre Cascudo disse no seu livro “VAQUEIROS E CANTADORES”: “A poesia tradicional sertaneja tem os seus melhores e maiores motivos no ciclo do gado e no ciclo heróico dos cangaceiros.”

O ciclo do gado, também conhecido como a Civilização do Couro no Nordeste brasileiro, compreende as gestas dos bois que se perderam anos e anos nas serras e capoeirões, escapando das buscas dos vaqueiros. Há um exemplo bem próximo daqui, em Caraúbas, quando o poeta Luiz Gonzaga Brasil colocou no papel “A História da Vaca Calçadinha”, na década de 1920, e que a coleção mossoroense fez o seu resgate no nº 02 da sua “Série D” – Cordel.

O ciclo heróico dos cangaceiros, que vem após o ciclo do gado, foi e é, ainda hoje, um dos que têm sido mais divulgados através da Literatura de Cordel. Ainda segundo Cascudo: “os grandes criminosos estão com suas biografias romanceada. Eram todas cantadas como foram os antigos Vilela, João (ou José) do Vale, o Cabeleira, os Guabirabas, ... Jesuíno brilhante, Antônio Silvino, Virgulino Ferreira, o Lampeão. As guerras das velhas famílias inimizadas e ferozes, os Mourões e Feitosas, do Ceará de ontem e os Pereiras e Carvalhos de Vila bela de hoje. Todos esses nomes, Dantas do Teixeira, Melos, passam em seu halo sangrento, na poesia bárbara e evocativa dos saques terríveis e dos corpo-a-corpo heróicos.”

A Literatura de Cordel também veio, segundo pesquisa feita recentemente, transformar os cangaceiros em heróis. O mais antigo documentário conhecido na poesia tradicional brasileira, data do século IX, constante nos trabalhos de Franklin Távora (O Cabeleira), 1876; Sílvio Romero (Cantos Populares), 1897; Pereira da Costa (Folk-lore Pernambucano), adaptado para o teatro em 1965 pelo prof. Silvio Rabelo, é a “Cantiga do Cabeleira”. Grandes nomes da poesia popular colocaram seus trabalhos do papel, citando os inúmeros personagens do Ciclo do Cangaço, como foram:

• Leandro Gomes de Barros, com “A Vida dos Guabirabas”;
• Hugolino Nunes da Costa (do Teixeira-PB), com “Liberato”;
• Francisco das Chagas Baptista e João Martins de Athayde, fizeram “A Canção de Antônio Silvino”;
• João Martins de Athayde, publicou “Vida de Nascimento Grande”;
• O Alferes Francisco Justino de Oliveira Cascudo lembrava de um verso que saiu, por volta de 1895, com o título de “O ABC de Moita Brava”;
• Gustavo Barroso, em seu livro “Ao Som da Viola”, cita “A História do Valente Vilela”;
• Câmara Cascudo, no livro Flor de Romances Trágicos, publicou o “ABC de Jesuíno Brilhante”;

Para marcar a passagem dos 70 anos da Resistência, com o incentivo de dr. Vingt-um Rosado, o escritor Vicente Serejo publicou, em março de 1997, pela Coleção Mossoroense a “Pequena Cantoria de Mário de Andrade e Câmara Cascudo para Lampião e Jararaca”, registrando os estudos dos romanceiros populares.
Inúmeros são os trabalhos apresentados sobre o Cangaço, a história de Lampião, seu tempo, suas lutas, seu reinado têm sido bastante divulgadas na Literatura de Cordel.

A Resistência de Mossoró, contra o ataque de Lampião motivou a publicação de vários folhetos na literatura popular. José Octávio Pereira de Lima, “A Derrota de Lampião em Mossoró”, publicado ainda em 1927, imagina os preparativos para a arrancada sobre Mossoró:

Lambe os beiços José Leite
De Santana, o Jararaca,
E ronca como um suíno;
Patrão, na voz de atraca,
Eu mato por brincadeira,
Cantando “Mulher Rendeira”,
Encho de ouro a bruaca.

Os versos contam a morte de Colchete e o ferimento que inutilizou Jararaca:

Jararaca não recua,
Bastante afoito e atrevido,
Tenta arrastar seu colega
Mas este já tem morrido!
E enquanto vai desarreá-lo
Um balaço vem prostá-lo
Ficando logo caído.

E termina com um hino de exaltação a Mossoró:

A data 13 de junho
em ouro ficou gravada.
Junto ao 30 de setembro
será uma nova alvorada.
Despontando alvissareira,
sobre a cidade altaneira
nobre, santa, imaculada.

João Martins de Athayde, in Entrada de Lampião em Mossoró, (Recife, 26/08/1927), fixa também Jararaca:

Nisto deram-lhe outro tiro
Pôs Jararaca no chão, 
Bandido de confiança,
Do grupo de Lampião;
Quando ele foi encontrado
Estava assim recostado
Bem perto da Estação.

Colchete levou um tiro
Porém não ficou mortal.
Caiu assim na calçada,
Junto ao muro do quintal,
Chegou um rapaz ligeiro,
Arrastou o cangaceiro,
Matando com um punhal.

Mariano Ranchinho, n’O Assalto de Lampião a Mossoró onde foi Derrotado, conta que:

No dia 13 de junho
Quando a chuva no sertão
Caia forte alagando
As grutas do sovacão.
Em busca de mossoró,
Caminhava Lampião.

Raimundo Alves de Oliveiras, mossoroense radicado no Acre-RO, desde 1943, escreveu A Entrada de Lampião em Mossoró em 1927, trabalho publicado em 1972, dando ênfase na defesa, dizendo:

Surgiu uma bala da torre
da Igreja de São Vicente.
Abrindo na nuca de Colchete
um buraco excelente.
Deixando ali estirado
o cangaceiro valente.

Jararaca fez careta
dizendo: - Parece mentira.
Aqui nesta cidade
até os santos atira.
São Vicente quer ser santo
mas pra matar é bom na mira.

Luiz Campos, pelo Projeto Chico Traíra, nº 08, FJA, em 1995 publicou “A Cidade de Quatro Torres”, no qual cita a resposta do cel. Rodolfo Fernandes:

Seu Virgulino Ferreira,
se está a precisar,
desses 400 contos
posso até arranjar.
mas não mande portador,
que só entrego ao senhor,
se acaso vier buscar


Lampião esse correu
na noite do mesmo dia.
Em busca do Ceará
e aos companheiros dizia:
- Viram que povo valente?
Só não atirou São Vicente,
mas ainda fez pontaria.

Concriz, em “Jararaca arrependido porque matou um menino”, (Mossoró, 1982), conclui o seu trabalho da seguinte forma:

Dizem que o cangaceiro,
valentão e corajoso,
se arrependeu e foi salvo
por Jesus, pai generoso.
Mossoró guarda um mistério,
porque no seu Cemitério
Jararaca é milagroso.

Veríssimo de Melo, publicou o ensaio “O Ataque de Lampião a Mossoró Através do Romanceiro Popular”, Natal, 1953; reeditado pela Coleção Mossoroense, sob a série “B”, nº 397, 4ª edição, Mossoró, 1983.

Zé Saldanha, também pelo Projeto Chico Traíra, publicou “O Sertão e seus Cangaceiros”, (Natal, 1995). Falando de Lampião ele cita a Resistência e a coragem de Rodolfo Fernandes e seus amigos:

Porém o Cel. Rodolfo
botou terra no seu plano.
Reforçou o Mossoró,
como um herói veterano.
Se Lampião não corresse,
tinha entrado pelo cano.

E termina louvando a cidade nos seguintes termos:

Parabéns a Mossoró,
a capital do Oeste.
Que enfrentou Lampião,
com os seus cabras da peste.
E foi a maior derrota
que ele sofreu no Nordeste.

CORDEL – Corda muito delgada, cordão, barbante.
LITERATURA DE CORDEL – Arte de compor ou escrever trabalhos artísticos, em prosa e verso, e colocá-los à venda pendurado num cordão ou barbante.
Mossoró, 10 de junho de 1997.


(*) Kydelmir Dantas - Pesquisador, sócio da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço - SBEC, do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte - IHGRN e do Instituto Cultural do Oeste Potiguar – ICOP. Agrônomo e Técnico da PETROBRAS é de Nova Floresta – PB.


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