(*) José Romero Araújo Cardoso
As paisagens urbanas e rurais, através de sua geografia humana, sobretudo nas periferias do capitalismo
globalizado que marca os dias atuais, vem sendo caracterizadas pelas
manifestações aviltantes cada vez mais agudas do drama da fome, as
quais cristalizam o significado da exclusão de grande parcela dos seres
humanos, espalhada pelos quatro cantos do planeta, a qual ainda
não foi beneficiada pelas conquistas tecnológicas e por sua
capacidade de gerar emprego e renda decentes que garantam melhores
dias, formulando de forma efetiva o real sentido da cidadania. Os donos dos meios de produção selecionam metodicamente espaços que são e serão beneficiados pela ação do capital
em suas múltiplas metamorfoses e interesses, relegando ao
esquecimento àqueles que não interessam de imediato à reprodução das
estruturas de poder. São os espaços marginalizados que não servem a curto ou
médio prazos, muitas vezes também a longo prazo, aos propósitos
definidos em infindáveis reuniões temperadas pelo gosto refinado por
dinheiro em quantidade absurdamente estratosférica. Assim, cotidianamente milhares de pessoas são atiradas no fosso da miséria, da pobreza e da fome, pois sem
perspectivas de melhores dias amargam a triste realidade do abandono e do
infortúnio, sendo submetidas à escravidão da falta de interesses dos
poderosos que as enxergam apenas como frios números das estatísticas
que permitem absurda maximização de lucros com interessante
minimização de custos para àqueles que são contemplados pelas benesses do
sistema. Citando exemplo clássico presente nas distorções inter-regionais brasileiras, indubitavelmente podemos
afirmar que em consonância com o despovoamento do campo no nordeste
brasileiro desponta de forma imperiosa o agro business em
determinados espaços rurais previamente selecionados, dotado de tecnologia de
primeiro mundo. Em contrapartida, a agricultura familiar vem sendo
notavelmente prejudicada e desestimulada em razão que percentual
significativo dos investimentos garantidos pelas políticas públicas
voltadas para o agro, viabilizadas pela ação do Estado, destina-se ao
sucesso da produção agrícola concentrada em atender as exigências do
mercado externo a fim de gerar divisas para fomentar a política
paternalista que caracteriza a atuação do Estado em garantir os
privilégios da poderosa classe que detém o poder. Além do mais, os poucos recursos destinados ao fomento à agricultura familiar não vem acompanhado de necessária e
eficaz instrução técnica que permita favorecer o sucesso da
produção e da comercialização agropecuária, não esquecendo ainda que
existem graves denúncias de corrupção envolvendo a destinação dos
recursos para este setor produtivo que garante inúmeros benefícios para
suprir o mercado interno, ao contrário do primo rico que se dedica a
atender as exigências externas cada vez mais sofisticadas. O resultado óbvio é o recrudescimento da situação de
penúria dos que sofrem com a intransigência da lógica do capital,
avançando de forma desumana as conseqüências trágicas da desnutrição.
Crianças, elos frágeis da teia maléfica montada pelo capitalismo,
perdem a visão por falta de alimentos, ficando apenas no couro e no osso
devido à ausência de proteínas que possam garantir a sobrevivência
e engrossando dia-a-dia as estatísticas referentes à
mortalidade infantil, motivada por doenças provocadas pela fome.
Esqueléticas e famintas desfilam suas desditas pelos
espaços menos privilegiados das favelas, alagados, palafitas,
pontes, campos adustos, lócus urbanos sem infra-estruturas e outros
locais usados como moradias, pois sinônimos da ausência de
compromissos, esses lugares se constituem nos territórios da fome e das privações. Enquanto isso, os poderosos que mandam e desmandam não demonstram nenhuma sensibilidade, nenhuma comoção,
nenhuma atitude concreta, que seja pragmática de fato, a qual possa
reverter o quadro surreal que vem tomando aspecto tétrico, cada dia pintado
de forma mais intensa com cores berrantes que revelam o drama da
miséria e da fome, da insensibilidade de parcela intransigente da
humanidade satisfeita e feliz com o esquema montado sobre
privilégios. Recantos esquecidos espalhados na imensidão nordestina abrigam populações famintas e desvalidas cujas condições
de vida são iguais às apresentadas pelos grandes bolsões de carência
crônica do continente africano, pois os indicadores sócio-econômicos
teimam em se
repetir em cada amostragem populacional que busca revelar
a situação do povo brasileiro, embora saibamos que muitas foram
propositalmente maquiadas para atender determinados interesses. Mães aflitas, viúvas das secas e dos descasos, choram
pelo destino que o sistema relegou aos seus filhos, aos quais
tudo é negado, desde um prato de comida decente à educação de
qualidade que possa garantir-lhes um futuro melhor, com esperanças e
felicidades, não esquecendo ainda que saúde também é algo negado de
forma injuriosa e infame. A injustiça tornou-se palavra de ordem no
imaginário dos poderosos. Historicamente a pobreza vem sendo tratada
como caso de polícia, pois exemplo disso temos na forma desumana como
os aparelhos repressivos do Estado trataram Canudos, como verdadeiro
caso de segurança nacional, simplesmente por que a sociedade
alternativa fundada no sertão baiano conseguiu superar os limites
extremos da exploração desmedida capitaneada pelo draconiano
latifúndio que impera desde a formação sócio-econômica brasileira. A intensificação do drama da fome foi profetizada e
alertada pelo cientista Josué Apolônio de Castro (Recife –
05/09/1908 – Paris – 24/09/1973) quando de sua magnífica campanha em prol da
erradicação do maior drama da humanidade, mas desde então nada foi
feito, pelo contrário, pois o problema ainda está sendo encarado como
um tema proibido, o qual escancara a mesquinhez contida na
manutenção e na reprodução das estruturas de poder que privilegiam poucos
e humilham a grande maioria excluída do complexo processo que caracteriza
os dias atuais. A ousadia e a independência de Josué de Castro, quando denunciou a fome como flagelo fabricado pelos homens,
foram responsáveis por momentos ímpares na história da
humanidade, mas que infelizmente responsabilizaram-se também pelos momentos
de angústia que o levaram à morte prematura em seu exílio na França,
imposto pela intransigência dos militares que derrubaram o governo
constitucional de João Goulart, histórico herdeiro político de Vargas. Refletir sobre as bases do pensamento do importante
teórico nacional, reconhecendo a importância da atualidade de
suas pregações e
defesas, é condição sine qua non para que busquemos lutar
pela superação dos aviltantes contrates que separam incluídos
e excluídos, contribuindo dessa forma para a consolidação de um mundo
melhor, com justiça social e harmonia para o gênero humano.
Insistindo em não
curar as feridas abertas com o drama da fome, os
poderosos do planeta alimentam insatisfações cujas conseqüências poderão se
revelar imprevisíveis, pois a partir do momento que o grito dos
excluídos tornar-se mais intenso e estridente talvez a composição
contida na superestrutura não surta tanto efeito a fim de abafar as
reclamações que se avolumam de forma impressionante devido a ausência
de amor que vem sendo observada na conjuntura em que impera a
ganância e a falta de compromissos com a sofrida realidade humana daqueles
que estão à espera de olhares mais humanos e compenetrados com suas
situações desesperadoras.
(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo (UFPB).
Professor-adjunto do
Departamento de Geografia (DGE) da Faculdade de Filosofia
e Ciências
Sociais (FAFIC) da Universidade do Estado do Rio Grande
do Norte
(UERN). Especialista em Geografia e Gestão Territorial
(UFPB) e em
Organização de Arquivos (UFPB). Mestre em Desenvolvimento
e Meio
Ambiente (PRODEMA – UERN).
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