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terça-feira, 12 de abril de 2016

Minhas aventuras no Piancó

Por Ignácio Tavares
Esta é uma estória da minha adolescência que vez por outra matraqueia a minha memória. O cenário do acontecido são as águas barrentas do Piancó, principalmente nos anos de transbordo de suas calha.
Isso mesmo, a barragem de Mãe D’água ainda não havia sido construída. As cheias do Piancó aconteciam com mais frequência, portanto, bastava uma chuva grande à montante da bacia do Açude de Coremas, para que o Rio transbordasse, invadindo a Rua de Baixo, às vezes até a rua do Comércio.
Eu gostava dessa situação, pois, quanto mais cheio estivesse o Rio maior era a festa da meninada da Rua do Comércio. Para nós, naquela época, nadar nas águas barrentas do Piancó era a melhor diversão.

Os lugares mais frequentados para os nossos banhos diários era a pedra da sedan, a pedra redonda e o buraco de Zé Bispo. Mas, o grande desafio era avançar Rio adentro em épocas de cheias.
Dão, primo e amigo, era o companheiro de aventuras quando das nossas incursões, escanchados sobre possantes cavaletes, nas águas barrentas do Piancó.
Devia ter cerca de doze anos e o primo perto dos dezoito. O meu irmão Felix não era muito de enfrentar as correntezas do Piancó, a não ser de canoa. Nunca foi um bom nadador, por isso evitava enfrentar os trambordos do Piancó.
Assim sendo, ao lado do primo Dão, cada um com um possante cavalete, desafiava as águas do Rio, principalmente quando estavam a invadir a Rua de Baixo.
Quanto mais cheio estivesse o Rio maior era a emoção de descer correnteza abaixo, escanchados nos cavaletes pertencentes ao tio mestre Álvaro. Era uma diversão e tanto.
Os riscos não eram poucos, posto que os remansos bravios, corredeiras velozes, ameaçavam os nossos cavaletes. Balseiros que desciam no Rio nos preocupavam, pois, quase sempre havia cobras ávidas de um porto seguro para desembarcar.
Eu e o primo virávamos como podíamos. Conhecíamos os melhores caminhos através dos quais era possível chegar ao sítio da minha avó, entre outros lugares, sem o risco de afogamento ou mesmo de sermos picados por cobras peçonhentas a espreitas nos balseiros passavam ao nosso lado.
Na época das grandes enchentes, nem mesmo o mais habilidoso dos canoeiros aceitava enfrentar a fúria das corredeiras do Piancó. Isso era muito bom pra a gente, porque somente nós dois podíamos chegar ao outro lado do Rio.
Ficávamos por dono de tudo. Passávamos pela roça de Dozinho, fazíamos uma limpeza nas pinhas maduras. Na roça de tio Marcionilo, o que havia de melancia, melão, a gente passava as mãos.
Quando o Rio baixava todo mundo tomava seus lugares. Marcionilo ao chegar à ilha, onde estava situada a sua roça, sentia a falta das melancias e dos melões. Ao se encontrar com a gente indagava: ¨ô dãozinho, passaram na minha roça e comeram as melhores melancias e os melhores melões. “Ah, danadinhos”!
Continuava: “não sei dizer quem fez aquele estrago, porem uma coisa me chama atenção: foram duas pessoas, um adulto e um menino. Não quero dizer que tenha sido você e Inacinho de Lourdes, que sempre lhe acompanha nas caminhadas pela beira de rio, por ocasião das enchentes. Agora, os rastros dão certinhos com os pés de vocês. Que coincidência, não é dãozinho”?.
Dão dava uma boa gargalhada ante a desconfiança de Marcionilo. Apesar da nossa negação, sabíamos que, o velho tinha certeza de que fomos nós mesmos os autores do estrago. Na calçada da casa do meu tio Cândido, onde todos se reuniam pra conversar, sobre coisas do dia-a-dia, Marcionilo queixava-se dos piratas de Dona Ana. Uma referencia a nós dois.
Nossas traquinices não se restringiam tão somente as roças de Dozinho e Marcionilo. Às vezes a gente descia até o poço do redondo e visitávamos a roça de Jorge Bispo, em busca de pinha madura. Éramos os reis do Rio.
Quanto mais águas melhor pra a gente. Enfrentávamos remansos perigosos, corredeiras, mas a nossa habilidade na condução dos cavaletes nos deixava muito a vontade para enfrentarmos as situações adversas.
Quando o Rio voltava ao leito normal acabava a nossa brincadeira. Ficávamos a aguardar outras oportunidades pra começar tudo de novo. Só havia um lugar que a gente evitava a qualquer custo.
Era descer rio abaixo para ver o encontro do Piranhas com o Piancó. Essa junção acontece lá na forquilha de dona Vitalina, matriarca da família Lacerda e Junqueira.
Quando queríamos ver o grande espetáculo do encontro das águas do Piranhas e do Piancó, muito antes deixávamos nossos cavaletes e íamos a pés até o local. Valia a pena porque era uma luta cujo vencedor era o Rio com o maior volume d’água.
O cavalete, usado para atravessar o Rio, no momento de grandes enchentes, era a nossa grande arma. Para quem não sabe, trata-se de uma tora de madeira, estreita, com a extensão de até dois metros, feito da raiz da Timbaúba. Esta árvore é nativa do sertão chega atingir até vinte metros de altura.
Na roça de Jorge Bispo, vizinha ao sítio de Ana, a minha avó, havia uma dessa espécie, que viveu por muito tempo. Mas, de tanto se tirar raízes pra fazer cavalete, terminou morrendo.
Naquele tempo não existia consciência ecológica, a exemplo de hoje. Ah se tivesse, com certeza a nossa Timbaúba estava firme, exuberante, a produzir os cavaletes de que tanto necessitam os ribeirinhos.
A raiz da timbaúba tem a mesma composição do material que se usa na fabricação de cortiça, ou melhor, tampa de garrafa. Por ser leve, suportava muito bem o peso de uma pessoa sem submergir as águas do Rio.
Não sei se ainda existe algum exemplar dessa árvore ao longo da beira do Rio. Se a espécie desapareceu, só tenho a lamentar porque a natureza ficou mais pobre, bem como, nós também.
Ignácio Tavares é economista. Professor aposentado do Departamento de Economia da UFPB. Ex-superintendente da FIPLAN.

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